sábado, 14 de março de 2015

"Psicologia da composição", de João Cabral de Melo Neto



A Antonio Rangel Bandeira

I

Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

II

A Lêdo Ivo

Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.

Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;

como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

III

Neste papel
pode teu sal
virar cinza;

pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)

IV

O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; rompendo
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)

V

Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido
contra o açúcar do podre.

VI

Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

VII

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

VIII

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
caiu, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

MELO-NETO, João Cabral. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003, pp. 93-7.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

"Passagem do ano", de Carlos Drummond de Andrade

















O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e

[coral

que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


ANDRADE, Carlos Drummond de. In: A rosa do povo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Comentário pessoal sobre o livro "Pavão bizarro", de Emmanuel Santiago


Originalmente publicado aqui.

Amigo, Emmanuel Santiago, como falar o que eu tenho para lhe dizer? Estou me sentido na canção José, de Caetano Veloso: assim mesmo, no fundo do poço, com meu grito lixando o céu seco. De verdade, não conhecia o seu trabalho, antes de ler o seu livro, mas consegui, ontem, terminar de lê-lo, e até agora estou sem saber o que dizer, pois quero dizer tantas coisas, mas não consigo escolher as palavras.

Quero lhe dizer que estou muito bravo com “vossa senhoria”, porque as plumas do seu Pavão Bizarro encobriram o livro que eu pretendia resenhar e que não vou mais, por ora, por sua causa! Estou num frenesi absurdo que me provoca a escrever sobre outra coisa, agora. Seu pavão me mutilou, me deixou na sarjeta.

Quero te xingar pelo seu “Soneto Piedoso”, falar mal da sua ousadia pelo seu “Soneto Branco”, ou como se diz por aqui no meu bairro: “sair na mão com você”, por acabar com as minhas certezas e observações em relação aos poetas contemporâneos, pois achava que a procura deles pela poesia estava em querer ser o próximo Drummond, ou o próximo Bilac, e não pela poesia. Não, você peitou o meu Bilac, referência de poesia. Eu estava completamente errado, mesmo acreditando ter algum argumento ainda.

Você encobriu as minhas cores e estou atônito. Não se faz isso com ninguém, moço! Muito menos com a minha ingenuidade de palavras doces, que tenta agora, como dor que se cala, achar alguma explicação para o que me aconteceu, desde que eu me aventurei na fantasia de uma fábula, que inicia o seu livro e sob algum pretexto, ainda me evoca a comentar.

Você é um deselegante. Seu livro é tudo que um livro de poesia precisa ser e vai além, porque ele é cativante, desafiador; ao mesmo tempo em que é evasivo, é objetivo; ao mesmo tempo em que busca a estética e a simetria, é cortante. Você é um atrevido, Emmanuel, porque, com todo respeito — e olha que li atentamente cada poesia —, inclusive o prefácio que me aludia ao que vinha de tão diabólico, em cada ato, em cada imagem construída; quero dizer que minhas palavras estão pruridas e ainda me causa comichão voltar pelo caminho de seus poemas. O seu trabalho com a escrita tem cheiro de sangue quente, tem gosto de veneno misturado à bebida nobre, escondendo-o; de dizer sem mesura, sem meias palavras, sem medo de expressar-se pelo receio do que podem pensar sobre o livro; de buscar o formal do dizer, mas sem ser aquele texto certinho, aquela poesia que diz coisas bonitinhas, não! É muito superior e sem comparações, como naquele soneto que termina o livro, tentando me convencer de que não havia um assunto a ser tratado.

Você me aturdiu, me machucou; vou contar o que você me fez, vou espalhar a fama do seu livro, pois quero que todos saibam o que você me fez e como o fez; quero acabar com a reputação da poesia romântica, dos sonetos de amor; quero deixar a bailarina caída na rua e fazer de cada impressão minha sobre o livro, algo a ser desnudado pela forma como me convidava a enxergar as plumas do seu Bizarro.

Vou contar como ele é. Não vou ser piedoso com nenhuma cor apresentada. Vou contar a fama do seu Pavão e aquilo que me tomou os dias e me tirou do meu último sonho, na última noite, e me fez adiar a conclusão e publicação de resenha sobre o livro que eu falaria, para se colocar à frente e abrir-se pungente, voluntarioso e sem chance alguma para mim, um simples leitor e resenhista. Por último e depois do seu Bizarro, quero dizer que não vim aqui pedir a sua permissão para resenhar sobre o seu livro, apenas estou lhe comunicando de que o farei. Aguarde a minha próxima resenha, não será uma ameaça à poesia-clichê, mas uma constatação de como se escreve um livro de poesia!

Josué Souza, julho de 2014.

Informações do autor:
Josué Souza é escritor, autor de As cores do ser: Eu-Livro.

Leia resenhas de Josué no site Da Literatura.

sábado, 26 de julho de 2014

Viva! Evoé!


Resenha originalmente publicada aqui.

Como disse o crítico francês Roland Barthes: “Escrever é fazer-se o centro do processo da palavra, é efetuar a escritura afetando-se a si próprio, é fazer coincidir a ação e a afeição”. Esta é a melhor definição que se tem ao ler o livro de poemas do escritor Emmanuel Santiago. O livro Pavão Bizarro, publicado pela Editora Patuá, é o livro de estreia dele como escritor. Relembrando-nos do Parnasianismo — escola literária que talvez seja o grande grito de mudança da poesia brasileira para a literatura, porque rompe com a poesia puramente romântica e redefine e reprojeta o trabalho do poeta com a escrita — o autor nos faz retornar a esse momento artístico pelo qual passou a nossa poesia na literatura, com a construção dos versos, com ritmo das palavras e na busca artística pela estética da poesia, de modo que a arte seja sempre preponderante ou a mais importante.

“Se Olavo Bilac procura
a palavra polida feito
a pérola (…)
é para depois prepará-la
dissipando as impurezas
da prosódia, de modo que
a melodia soe cintilante
em ouvidos de ourives (…)”

(Excerto de “A fábula de Fabergé”)

O autor, mineiro de origem, mas vivendo em São Paulo, causa uma espécie de torpor no leitor com a sua escrita, o que faz a leitura de seu livro ser instigante em cada parte, em cada detalhe de sua organização, em cata ato de construção ou por cada enredo que ele revela ao longo de seus poemas. Não somente Ouro Preto e Mariana, cidades mineiras reveladas por suas lembranças e por marcos históricos de registros, como em “Igreja de Nossa Senhora do Pilar (Ouro Preto)” e “Igreja de São Pedro dos Clérigos (Mariana)”, mas o próprio Estado de São Paulo, onde vive atualmente, não escapa ao retrato artístico do poeta, como ele o mostra em “Na marginal”:

Feito um bombardeio, a noite
se abate sobre São Paulo
e a cidade arde, incandescente

Num céu estilhaçado, a lua escorre
pelos olhos, fosca e opaca, cor
de cocaína batizada, e
me deixa chapado respirando
a fumaça cruenta do asfalto.

Este é talvez o ponto alto que marca a obra de Santiago, porque a obsessão pela arte e pela erudição das palavras, tão comuns aos poetas parnasianos, é contrastada em alguns momentos pela forma com que o autor se expressa e constrói e organiza os poemas de seu Pavão Bizarro. Aliás, a organização do trabalho é profundamente reveladora. Sua poesia é de alto risco, porque ele não escreve sobre ideias prontas, com momentos sentimentais para arrancar deles algum versinho ou alguma coisa bonitinha a se dizer. Santiago sutura sua composição, promove cirurgias nos pensamentos e causa um frenesi no amante da boa poesia, porque ele diz o que tem a dizer, sem a preocupação de exaltar valores, ou de escrever de forma planificada sobre uma experiência ou copiar a forma de dizer de poetas consagrados, tão comuns a escritores em início de carreira (o que me fez durante um período e ainda me inibe a comentar alguns livros de poesia de novos escritores nacionais). Emmanuel Santiago imprime a sua marca como poeta, e dela contagia o leitor, como mostra seu poema “Dionisíaca”:

O vinho tinto
que te molhou os lábios
e afogueou os olhos
fez despir-se, em tua boca,
pétala por pétala,
a hemorragia lenta
da lascívia.

O autor vai dialogar com os “Joões” de suas memórias. Com João Gilberto, uma moda de violão. Com João Cabral de Melo Neto, uma engenharia firme e elegante ao projetar a “casa artística” — desnuda de elogios — por onde as palavras vão habitar. Com João Guimarães Rosa, o embate que o fez romper relações com escritor, por questões políticas, como ele se descreve, e o embate que há entre o que ele pensa sobre o “João Rosa” e o “João Neto”, como aparece no seu poema “joão & joão”:

um joão era fábula
 o outro era fábrica
um joão era lúdico
 o outro era lúcido
um joão era música
 o outro era músculo
um joão
prosa
             com passo de
                                       poesia
                                                      a alquimia do verbo
                                                                                        o outro
                                                            a geometria
                                                               do verso
                                       poesia
             em tempos de
prosa
um joão era mágico
       o outro lógico
       um era mítico
       o outro nítido
      um joão
                  milagre
       agreste
                  o outro
                  um deles se desdobrava em
                                                                fases
                  já o outro                                           corpo lunar
                                   se delimitava em partes
                                                                           coisa linear
um joão era róseo
a rosação das roseiras: frondoso
                                   como o são francisco
                                   esse rio pau enorme
                                   esse joão
rosa
o outro era cabra
planta fibrosa e negra: espesso
                                   como o rio capibaribe
                                   esse cão sem plumas
                                   esse joão
cabral


Emmanuel Santiago faz de sua literatura outra forma de intervenção para a arte e para a realidade. Semelhante ao que Clarice Lispector disse sobre si: “Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro.”, Emmanuel é o tipo de escritor que vai além de coser suas memórias e de falar de dentro delas. Seu jeito arrojado inflama o texto, arranca do ar coisas suspensas, e faz o amante da poesia, gritar e querer ler a sua próxima composição, o seu próximo poema. Seu estilo diabolicamente sacro corta a poesia na sua apresentação, talhando-a por seu trabalho duro e desgastante, porém, extremamente prazeroso que é o ato de compor uma poesia, assim como faz um ourives, ao desenhar uma joia.

Emmanuel é um Voyeur, assistindo e deflagrando de sua escrita o erotismo e os desvios sexuais dos poetas parnasianos. Ele é um verdadeiro “Furor Parnasiano”. As plumas do seu Pavão vão revelar as cores de sua obra artística e a razão de revelar os sentidos delas, para união rica e do Bizarro que ele faz entre a arte e literatura.

Queria meu soneto de cor branca,
todo branco, que nunca fosse negro,
pois o negro é profundo, cheio de ecos
e coisas das quais só se sente o cheiro.

O branco, não. O branco é superfície
e silêncio, o suspense de um relâmpago
retido na espessura de um espelho;
branco é a cor das coisas sem conceito.

Não o branco solúvel, cor de gelo,
nem o branco volátil, cor de espuma,
nem o branco dourado do ouro branco;

quero um branco absoluto, branco abstrato,
o mais puro, o mais claro — mas sem brilho:
quadrado branco sobre o fundo branco.

(Emannuel Santiago, Soneto branco)

O autor quando percebeu: seu Pavão voou e ele perdeu completamente o controle sobre suas asas. Para nós, leitores, quando o vimos voando, um grito de louvação: Viva! Evoé!

Vênus e Marte

Uma cena de Botticelli:
vê-se Marte amortecido
na mortalha que o amor
teceu; Vênus observa
não se sabe o quê, absorta
em divinos devaneios.

No torso do deus
desfalecido, o branco
glacial é frígida labareda
cristalizada em carne, luz
da estrela polar atravessando
a névoa — ou será
a estrela Sirius? —;
sacrílego lírio ardente,
sereno sírio estelar

(Emmanuel Santiago, poesia do caderno “Gente de Palavra”, Edição nº 20)

Josué Souza, julho de 2014.

Informações do autor:
Josué Souza é escritor, autor de As cores do ser: Eu-Livro, a ser publicado em agosto.

Leia mais resenhas de Josué no site Da Literatura.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A irreverência e o lirismo de um pavão bizarro


Resenha originalmente publicada aqui.

Pavão Bizarro, primeiro livro de poemas do mineiro Emmanuel Santiago — ele nasceu no “terceiro menor município do Brasil” (São Lourenço) —, é uma obra ao mesmo tempo irrequieta, quando ironiza os parnasianos (“A fábula de Fabergé”, que dá título ao livro), muito bem codificada, em seus sonetos que tratam dos mais diversos temas; nos octassílabos que cinge com primor e mesmo em poemas concretos com características lúdicas, como “Direitesquerda”. Há, ainda, as referências ao mar, a dois Joões: Gilberto e Cabral, à sua musa, Tatiane, que não tem nada a ver com a musa parnasiana que ele agride e explora, mas é uma mulher que recebe um soneto com rosas que se alimentam dele.

A pluralidade da obra de Santiago, de apenas 70 páginas, é impressionante. Tudo o que ele se dispõe a fazer em “Pavão Bizarro” fica perfeito. Das ruas calçadas de pedras das cidades históricas de Minas Gerais, ele desenvolve poemas a igrejas conhecidas, com seu cheiro de incenso, seu pó de ouro, apontando, contudo, uma devoção meio descrente.

Seus sonetos são o que há de mais especial no livro. Particularmente, selecionou-se o seguinte:

Soneto piedoso

Penso num Jesus pregado na cruz,
talhado bem com cuidados de arte
e um pano vermelho cobrindo as partes
pouquíssimas vezes postas à luz.

Penso num Jesus na cruz, Ó Jesus,
em teu coração tão santo, um infarte!
Teu corpo na cruz foi o estandarte
com manchas de sangue e bolhas de pus!

Deixou-te o Pai, morres órfão, sozinho,
a fronte rasgada pelos espinhos
e o corpo desfeito entre tantas chagas.

Que pena de ti (cadáver, menino?)
esculpido em teu caráter divino,
não te coças, não fodes e não cagas.”

Essa humanização de Jesus na cruz ele também faz quanto às musas de Dionísio em “Soneto idílico”, retirando delas toda a capacidade de influir num poema formalmente perfeito, do ponto de vista da Antiguidade Clássica, mas concedendo-lhes o dom de inspirar um soneto contemporâneo, meio debochado. Nem os arcadistas escapam da fúria da caneta de Santiago. Em “Uma lira para Marília”, ele faz um pastiche de Tomás Antonio Gonzaga. Aliás, mesmo quando escreve um soneto para João Gilberto, Santiago parece ter um sorrisinho moleque, como quem desbanca o pai da bossa nova. Essa impressão se desfaz ao longo da leitura do livro, mas sua fúria de tudo desestruturar, às vezes, confunde.

Pavão Bizarro é um livro para se ler várias vezes e revela o talento impressionante de um autor provinciano que fala de São Paulo com a mesma desenvoltura com que trata as igrejas das cidades mineiras. É uma obra para se ler várias vezes. Quando se a toma em mãos e se a lê pela primeira vez, ao fim das 70 páginas o desejo de relê-lo imediatamente acomete o mais ávido leitor de poesia. Boa leitura!


Vivian de Moares, julho de 2014.

Informações do autor:
Vivian de Moares é jornalista e poetisa, autora de Sonetos sombrios (2012), Poemas e canções (idem) e haikais/ vivian/ de moraes (2013).

sábado, 12 de julho de 2014

Plumas de sangue e fel: introdução a "Pavão bizarro", de Emmanuel Santiago

Tal como Rubem Braga, em uma de suas crônicas mais inspiradas, construiu um pavão “arco-íris de plumas”, Emmanuel Santiago, em seu livro de estreia, resolveu dar forma, cuidadosamente, a um Pavão bizarro. Neste caso, porém, não se trata de um olhar lúdico e carregado de ternura sobre o prosaico, mas de uma lâmina afiada que, ponto por ponto, desperta e fere os sentidos do leitor mais precavido.

O primeiro ato do rito macabro é encenado pelo poeta no revival parnasiano de poemas como “A fábula de Fabergé”, que abre o volume, e “O objeto soneto”. Não há como deixar de entrever um riso sardônico na busca obsessiva e no fascínio do eu lírico pela perfeição: uma voz cujo virtuosismo técnico incessante se volta também contra o leitor, como se nota de forma mais explícita no “Soneto sem assunto”: “Pirotecnia pura! Mas agora,∕que o soneto está quase terminado,∕o relógio murmura: duas horas”. O poema, embebido no torpor das formas fixas, escancara o seu próprio constructo e lança notas de cinismo e fel que, salvo engano, podem se dirigir, em sentido mais amplo, a boa parte da poesia contemporânea, cujo solipsismo exasperante nada mais é do que a expressão (essa sim, pura), de um grande comodismo em nome da virtuose. Esse movimento de aproximação e distanciamento crítico do livro de Santiago em relação à tradição está presente desde o título da coletânea: se “pavões bizarros” era o epíteto com que Vicente de Carvalho pejorativamente designava os parnasianos (antes dele próprio se tornar um grande ícone da escola que, durante muitas décadas, tornou-se a referência de como se fazer poesia), a caricaturização de procedimentos estéticos levados ao limite permite ao autor imprimir as marcas do mundo estilhaçado até mesmo no que parecia mais inabalável. O fascínio pela deusa mutilada (“Vênus de Milo”) e o “coito sem gozo” da Musa Impassível (“Furor Parnasiano”) já trazem algo do veneno e da profanação que, além do referido sarcasmo, irão contaminar, sem piedade, os outros poemas do conjunto.

No segundo ato desse rito muito particular, o eu lírico invoca as suas origens, o mundo da província e a atmosfera familiar, sem abandonar, contudo, o seu poderoso olhar enviesado. É assim que o poema “Igreja de São Pedro dos Clérigos (Mariana)” evoca não o “pus de ouro” dos santos, mas a dourada claridade que invade a nave e a eleva no espaço, etérea como a “luz balão” cabralina. A descrença e a visada em negativo de um eu lírico que sabe o sagrado um “cristal trincado” e, como Bandeira, tem a certeza de que o espírito pesa mais que o corpo (“Igreja de Nossa Senhora do Pilar (Ouro Preto))” é fruto da mesma impureza que celebra a “espúria matéria escura” do nosso “Anjo torto” (e escuro) Aleijadinho, e que realiza a transubstanciação diabólica e corpórea da “Eucaristia”.

E, por fim, o terceiro ato desse rito demoníaco é celebrado claramente em “Entropia”, quando a via láctea bilaquiana se faz um “rastro de mênstruo” e as “ninfas sifilíticas” do “Soneto Idílico” são voluptuosamente estranguladas em nome de Dionísio. A essa altura, o “Ângelus”, um momento tão mineiro e alentador, é a encarnação da Lua Negra, quando, também no avesso da virtuose parnasiana, “as coisas, vacilantes, soçobram nas sombras”. Aqui, atam-se as pontas dos poemas iniciais do livro: à projeção sinistra de um mundo estilhaçado e cruento não escapam, por contaminação, as pérolas, as bailarinas de caixinhas de música, os origamis e os bonsais cultivados com delicadeza por essa subjetividade provocativa, cujo vouyerismo sinistro se compraz, narcoticamente, com a fumaça da cidade grande.

Ao beber nas tradições e ao mesmo tempo recusá-las como fórmulas prontas, procurando (sem necessariamente encontrar) uma dicção própria, mas fazendo dessa procura a matéria da sua poética, o inquieto autor desvela os impasses da lírica nos dias de hoje, quando os vernissages, matérias de capa e conluios de patota valem (muito) mais do que a própria criação. Enfim, um livro que, sarcasticamente, toma a bizarrice dos poetas-pavões ao pé da letra.

Fabio Cesar Alves, fevereiro de 2014.

Informações do autor:
Fabio Cesar Alves, professor de Literatura da USP.

Vênus e Marte

Uma cena de Botticelli:
vê-se Marte amortecido
na mortalha que o amor
teceu; Vênus observa
não se sabe o quê, absorta
em divinos devaneios.

No torso do deus
desfalecido, o branco
glacial é frígida labareda
cristalizada em carne, luz
da estrela polar atravessando
a névoa — ou será
a estrela Sirius? —;
sacrílego lírio ardente,
sereno círio estelar.



Poema publicado na revista Gente de Palavra, nº 20 (que pode ser baixada aqui).